Quando completei sete anos, ganhei uma boneca da minha mãe. Foi a minha primeira boneca. É que eu sempre achei carrinhos mais interessantes, sabe? Brincar de casinha, de comidinha, de cuidar de neném era uma coisa que realmente me aborrecia. Isso era brincar de ser gente grande. Eu não queria isso. Se brincar de ser adulto fosse tão bom, os adultos não brincariam tanto de criança, como fazem.

Com os meus carrinhos, eu era o que tinha que ser: uma menina de sete anos. Era única a emoção de imaginar que meus carros estavam a toda velocidade pelo quintal da minha casa, passando por várias estradas da minha imaginação, conhecendo os lugares mais inusitados que eu poderia criar… Nossa!  Era uma aventura.

Com essa boneca, porém, mudei de idéia.

Sofia era linda. Não era que nem as outras bonecas que eu via as meninas brincando. Não era loira, não era magra, não tinha olhos azuis. Nada disso. Sofia tinha vida. Seus olhos escuros brilhavam alegria. Seus cachos negros brincavam de mola em seus ombros. Seu corpo de pano tinha movimentos quase acrobatas.

Não pense você que eu fazia papinha pra Sofia, nem que a chamava de filha… Nada disso. Sofia era minha amiga. Sempre estava no banco de passageiro nas minhas fantasias recheadas de peripécias nas rodovias da imaginação. Acompanhava-me em todas as minhas corridas de carro.  Mas com o tempo, essas aventuras ficaram cada vez menos freqüentes. Você sabe… Eu tinha que dar atenção pra ela, era minha melhor amiga. E atenção requer tempo. E, bem, eu passava horas conversando com ela. Sofia sempre foi uma boa ouvinte. E, acredite, era uma boa conselheira também.

O tempo foi passando…

Passando…

Passando…

Passando…

E quando percebi, eu completava 12 anos. E Sofia? Ela estava bem ao meu lado quando assoprei de uma vez só todas as velas. Fuuuuu! Nesse dia, eu ganhei outras bonecas, mas não liguei pra elas. Eu tinha Sofia. Quem precisa de mais, quando tem o melhor?

Os ponteiros do relógio continuaram a girar…

Tick tock, tick tock, tick tock…

Era noite de Natal e eu já tinha 15 anos!  Não brincava mais de boneca, mas não abandonei Sofia. Já disse, ela era uma amiga, não somente um brinquedo. Ela fazia parte da família. Por isso, a levei pra festa na casa da minha tia. Todas as minhas primas estavam na festa. Eu não as via há tempos e foi muito bom conversar com elas – acho que começávamos a brincar de adultos.

Às vezes eu me ausentava e ficava a sós com Sofia, pois eu sabia que ela se sentia um pouco abandonada e deslocada ali. Eu saía de fininho para a varanda dos fundos e sentava nas escadas. Eu a deixava em meu colo. Arrumava sua roupa… Mexia em seus cabelos… Tudo para ela ficar confortável e bonita. Nem falamos muito essa noite. O silêncio já selava nossa amizade. Apenas ficamos olhando para o céu repleto de estrelas… Imaginando se elas tinham alguém com quem compartilhar o excesso de sua luz. Eu me considerava feliz por ter a Sofia pra compartilhar o excesso de vida em mim.

Sorri para ela. E tenho certeza que ela também sorriu para mim.

Foi nesse momento que tudo mudou.

- O que você tá fazendo aqui escondida? – uma das minhas primas se aproximou.
- Nada demais. – desconversei.
Ela me olhou desconfiada, mas não falou nada.
- Vamos entrar. Nossos primos chegaram. – me chamou.
- Ham… – pensei por instantes e olhei para Sofia. Ela ainda sorria pra mim. – Vou depois.
- Por quê?
Ela olhou pra boneca e depois para mim. Sabia a resposta.
- Prefere ficar falando sozinha com essa boneca de pano velha, suja e feia?
As palavras não faziam o mínimo sentido na minha cabeça. Eu não estava ‘falando sozinha com uma boneca’. As palavras nunca são lançadas ao vento, se são ditas para as pessoas certas. Quem estava ali era Sofia e ela me respondia sim.
Aliás, responder… Uma coisa que não consegui fazer naquela hora.
- Essa boneca é ridícula! – ela continuou e pegou Sofia de meus braços.
Apenas a observei ainda sem ação.
- Não vê que ela está rasgada?
Mostrou seus braços com a costura desgastada.
- Não vê que ela está velha?
Mostrou suas pernas puídas.
- Os olhos dela são feitos de botão!
Um deles quase caiu nessa hora.
- O cabelo dela é uma bagunça!
Puxou vários nós em suas madeixas.

Então, pouco a pouco, meus olhos começaram a ver o que a maioria das pessoas vê: o superficial. Minha visão mudou de foco e tudo o que antes eu achava lindo, virara uma imagem feia. Esqueci das aventuras, das conversas… Esqueci do que vivi e senti com Sofia. Minha mente estava ocupada com o que eu via diante de mim: uma boneca de pano rasgada, suja e feia. Era essa a realidade que eu não precisava ver. A realidade que eu abraçava com força agora. A realidade que fazia as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Sofia.

Minha prima não entendeu nada e saiu assustada, me deixando sozinha novamente com a minha amiga. Minha amiga…

- Velha… Suja… Feia… – eu repetia as palavras da minha prima entre soluços.

Nunca fez muito sentido para mim o porquê do diferente intimidar as pessoas. Que mal havia em se amar uma boneca como Sofia? Queria tanto que todos a vissem como eu a via… Como eu a via antes de alguns minutos atrás. Queria que percebessem como ela realmente era quando a vi pela primeira vez: cheia de vida, com olhos brilhantes, cachos brincalhões e mobilidade de dançarina.

Talvez se os outros começassem a não dar importância ao que é apenas aparente, eu conseguisse voltar a vê-la como deveria. Amiga. Linda.

- Seja bonita! – eu chorava abraçada a ela – Seja bonita, por favor!

Por vezes eu a fitava, e seus olhos negros sorriam para mim ainda. Não era o mesmo sorriso, nunca mais seria. Eu começava a brincar de ser adulto.

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Alguém quer um pouco de melancolia aí? rs

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