capa_delirioDelírio (Editora Intrínseca) é o segundo livro da autora norte-americana Lauren Oliver, mas o primeiro de uma trilogia. Assim que lançado, a obra encabeçou a lista do The New York Times entre os mais vendidos. O primeiro livro da autora, Antes Que Eu Vá, conseguiu o mesmo feito e, de quebra, ganhou do Publishers Weekly o prêmio de Melhor Livro do Ano.

Oliver, dessa vez, cai nas graças do mundo distópico, nos convidando a conhecer um Estados Unidos que encara o amor como uma doença mortal – onde todos devem ser tratados assim que completam 18 anos, com o objetivo de serem curados por completo. Segundo o Governo, a culpa de todos os males da sociedade, como guerra, fome, dentre outros, reside em um só acontecimento: a entrega dos seres humanos às suas paixões e, consequentemente, amor.

Lena, a protagonista, é uma garota que está prestes a passar por essa intervenção médica e acredita realmente que é o melhor a ser feito. O que reforça essa sua determinação em acreditar nos métodos do Governo é o seu passado. Seu pai foi tido como um simpatizante do movimento dos Inválidos (aqueles que são resistentes à essa intervenção e acham que o amor não é uma doença); já sua mãe, após passar por intervenções dolorosas e não mostrar “melhora”, comete suicídio.

O mundo perfeito de Lena começa se desfazer aos poucos quando sua melhor amiga, Hana, que sempre se mostrou questionadora, começa a ir em certas festas ‘proibidas’ para escutar músicas também não autorizadas. Esse fato só é agravado quando um garoto chamado Alex aparece em sua vida – mostrando que nem tudo é como parece ser.

AMOR: uma única palavra, algo delicado, uma palavra que não é mais larga ou longa que uma lâmina. É o que ela é: uma lâmina, uma navalha. Ela corre pelo centro de sua vida, cortando tudo em duas partes. Antes e depois.
O restante do mundo cai em ambos os lados.

Distopia é o assunto da moda e sabemos que, de inovador, nada tem. Fato. Confesso que gosto do tema. É interessante pensar nas possibilidades de uma sociedade ditatorial, que restringe o ser humano. Até porque, mesmo que não vivamos uma realidade tão extremista, há muitos aspectos que podemos traçar paralelos com a nossa vida. Livros assim causam reflexões importantes, que o leitor mais atento não deixa passar despercebido.

E Lauren consegue fazer isso muito bem ao criar uma sociedade apática e sem cor. Os personagens que já passaram pela intervenção e foram curados do “deliria nervosa” não possuem alegria e vivem no piloto automático. O contraste com os que ainda não foram curados e até mesmo com os Inválidos (que vivem além dos muros, em um lugar chamado Selva) é bem delineado: nestes, conseguimos perceber uma faísca de vida.

A dicotomia fica mais interessante ainda quando analisamos somente a personagem principal. No início, Lena é um robozinho, mesmo que lá no fundo reprima a sua vontade de romper com o sistema. Gradativamente, ela vai dando espaço para essa nova pessoa destemida e ousada, passando a nem mais se reconhecer. É a típica evolução do personagem que começa a tomar conhecimento de sua força e suas qualidades. E não é assim que acontece conosco? Quando nos deparamos com uma situação conflitante, perigosa, que nos leva ao limite, descobrimos possuir atributos que sequer ousávamos imaginar.

O que gostei em Lena é que ela é uma garota normal, não é a mais conhecida do colégio, nem a mais bonita, nem a mais nada. Mas essa é a visão dela (já que o livro é narrado em primeira pessoa). Aos poucos, junto com a protagonista, vamos conhecendo a verdadeira Lena: uma garota que vai além da beleza, pois é corajosa, forte e sensível ao mesmo tempo. Pode parecer contraditório, mas é essa contradição que faz um personagem ser bem desenvolvido.

Os personagens secundários também tem papel de destaque, como a amiga Hana, a prima Gracie e a irmã Rachel. Até mesmo a família emprestada de Lena (ela mora com os tios desde a morte dos pais) é importante como contraponto.

O romance no livro é bonito, nem um pouco forçado. Ele é o fio condutor da história, mas não fica só nisso. Quem tem uma sensibilidade maior consegue perceber que a história não trata somente de amor entre homem e mulher, mas sim entre pais e filhos, entre irmãos, entre amigos, e até mesmo entre o homem e Deus. Percebemos isso também através das referências no início de cada capítulo, que vez ou outra cita livros autorizados pelo Governo e o “Shhh”, uma espécie de manual de conduta que todos tomam conhecimento desde novos.

A narrativa de Lauren é na medida certa. É ótimo perceber que a autora consegue escrever bem tanto nas cenas mais leves, quanto nas mais tensas. No decorrer de todo livro, você fica em uma corda bamba. Ora, Lena e Alex estão brincando na enseada, jogando água um no outro; ora estão fugindo de uma batida em uma festa proibida, onde jovens são tratados brutalmente.

O que senti falta na obra foi um pouco mais de descrição da sociedade, seus detalhes. Mas entendo que, como Lena é a narradora e uma vez que ela não tinha essas informações, fica complicado repassar ao leitor. Acredito que no segundo livro (não posso comentar o porquê, senão será spoiler), isso mudará e teremos mais detalhes de como tudo funciona.

Mas esse deslize é pouco diante do que o livro se propõe. Delírio é reflexivo e trata de um sentimento carente no mundo atual. Com toques de ficção, consegue transmitir de maneira séria algo maior: é o amor que move o mundo; o excesso dele, em mãos humanas e erradas, que pode ser transformado em catástrofe.

Pandemônio, segundo livro da trilogia, foi lançado nos EUA em Fevereiro deste ano e o último, Requiem, será publicado em Fevereiro de 2013 lá fora. Ambos ainda não tem data prevista para lançamento por aqui. A Fox comprou os direitos da trilogia, e a autora já leu os primeiros rascunhos do roteiro que, em breve, virará filme.

Livro: Delírio (Delirium)
Editora: Intrínseca
Autor: Lauren Oliver
Ano: 2012
Páginas: 352
Avaliação4.0

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