[ etc ] Vai uma vírgula aí?

Há um novo tipo de epidemia na blogosfera, que se alastra  de forma alucinante. Pessoas estão se deixando abater e indo para o lado negro da força.

Falo dos viciados em vírgula.

O uso desenfreado da dita cuja já é considerado uma praga. Para todo lugar para o qual me viro, lá está a desgrama da vírgula. Bicha chata e entrona. Fica onde não tem que ficar, muda o sentido todo da frase e me irrita. Mas tadinha, sei que a culpa não é dela. Afinal, ela só está no lugar errado, porque há alguém por detrás que cabulou as aulas de Língua Portuguesa no primário, pra ficar trocando figurinha ou pulando elástico. É, é de você mesmo que tô falando. Não disfarça.

Antes de tentar erradicar essa mal do planeta Terra, vou falar um pouco sobre a origem da vírgula. Bem, você sabe que ela é um sinal de pontuação, né? (Responde que sim, pra eu não achar que nem tudo está perdido, por favor.) Mas você sabia que ela só foi inventada lá no século XV pelos italianos? Pois é. O interessante é que a maioria dos sinais de pontuação apareceu muito tempo após a invenção da escrita, que lá nos primórdios era apenas uma representação da fala – onde não havia espaço entre as palavras, nem qualquer outro tipo de símbolo para pausa. Imaginaadificuldadequedeveriaserlertudoassimjuntinho?

Enfim, a vírgula nasceu e não foi por mero acaso. Mas também não foi com (somente) o intuito de fazer uma pausa. Isso aí é o que a Tia Teteca repetia como um mantra para ver se enfiava na sua grande cabeça dura: “Leiam em voz alta e quando tiver pausa, há vírgula.” A verdade é que cada um tem um ritmo de leitura e não é ele que dita a vírgula; e sim, o contrário: a vírgula bem empregada, que vai orientar como você deve ler tal oração. (Não, ninguém aqui tá falando de religião. Oração = conjunto linguístico que se estrutura em torno de um verbo, apresentando, sujeito e predicado.)

A vírgula é poderosa, meu povo. Tá duvidando? Veja o vídeo:

Percebeu que o negócio é sério, amigo? Que tal, então, passar para o lado do bem e aprender alguns macetes para o uso da vírgula? Tudo de fácil entendimento, sem nomes obscuros, como aposto, vocativo, orações coordenadas sindéticas adversativas (Oi?) etc. Nessa altura dos acontecimentos, quase com 50 anos na cara e sem saber usar vírgula desde sempre, não vai querer tentar decorar as 3.126 particularidades desse sinal de pontuação, né? Sabendo o basicão, já tá bom demais.

Abaixo, os cinco passos que fazem parte do processo de rehab dos viciados em vírgula:

1. Tá listando elementos? Vírgula neles!

Exemplo: Fui à feira e comprei jaca, melancia, melão e abacaxi.
(E voltei descadeirada com o peso, claro. Te falei que o carrinho que levo pra feira quebrou? Ôh, glória.)

Enfim. Perceberam os elementos listados? E viram que também não coloquei vírgula antes do ‘e’? Não existe vírgula ali, gente. Aliás, antes do ‘e’, só emprega-se vírgula quando a frase depois do ‘e’ fala de uma pessoa, coisa, ou objeto (sujeito) diferente da que vem antes dele.

Exemplo: O carrinho da feira quebrou, e os melões rolaram ladeira abaixo.
(Perceba que a primeira frase falou do carrinho porcaria, já a segunda, das frutas que me fizeram correr feito doida atrás delas.)

2.Tá explicando alguma coisa no meio de uma frase? Usa a vírgula pra não embolar o meio de campo.

Exemplo: O melão, que rolou ladeira abaixo, estava podre.
(Podre, gente! Acredita? Mereço, né não?)

Outro exemplo interessante: A melancia e a jaca, só porque são gordas e invejosas, saíram na frente e derrubaram a barraca das elegantes peras.
(A rivalidade existe no reino vegetal.)

O trecho destacado explica algo sobre “A melancia e a jaca”, portanto, deve vir entre vírgulas.

3. Quer situar o leitor no tempo, espaço e modo? Se for no início da frase, só usando a vírgula.

Exemplos:
Geralmente, sempre me ferro quando vou à feira. (geralmente = modo)
Semana que vem, vou me lembrar de tacar o carrinho de feira na cabeça do chinês safado que me vendeu aquela bomba. (semana que vem = tempo)
Lá na feira, fiquei famosa depois desse evento pitoresco. (lá na feira = lugar)

Esse caso tem uma particularidade. Se a expressão de tempo, modo, lugar etc. não for uma expressão, mas sim uma palavra só, então a vírgula é facultativa. Vai depender do sentido, do ritmo, da velocidade que você quer dar para a frase. No primeiro exemplo, então, a vírgula após o “geralmente” não é obrigatória.

4. A oração tem sentido mesmo fora do texto? Ela tá implorando por uma vírgula, então.

Exemplo: O carrinho quebrou, o melão podre saiu rolando, a melancia e a jaca derrubaram a barraca da pera, uma plateia aplaudia e ria.

Percebeu como as orações são independentes entre si? Todas tem sentido completo se forem retiradas do texto.

O mesmo acontece quando usamos conjunções (Prometi que não ia usar palavras difíceis, né? Foi mal.).

Exemplos:
O abacaxi foi a única fruta que se salvou, no entanto estava sem gosto. (‘entretanto’ ou ‘mas’ ou ‘porém’ ou ‘todavia’…)
Já fiquei sabendo de uma rebelião na feira liderada pela pera, pois ela é vingativa.

5. Sujeito e predicado juntos? Pode tacar uma virgula entre eles! – NOOOOOOOOOOOT!

Pelo amor do meu bom Deus! Não se separa sujeito do predicado com vírgula! Isso é crime! Heresia! Quer morrer?!

Exemplo:
Eu, odeio ir à feira. – ERRADO
Eu odeio ir à feira. – CORRETO

***

Certeza que, com apenas essas 5 dicas, você vai conseguir sair da rehab e poder gritar pra todo mundo ouvir que está livre do vício do uso descontrolado (e doentio) da vírgula.

Claro que há outras regrinhas, mas  vamos devagar – nada de forçar a natureza. O básico, que foi o que prometi, é esse aí.

18 comentários a “[ etc ] Vai uma vírgula aí?”

  1. Vou conferir todos os meus posts agora! shausha
    Também nunca havia reparado em pessoas viciadas em vírgulas(Elas estão entre nós…) mas é bem interessante apontar esse tipo de coisa, às vezes a pessoa nem repara e vai tooda feliz ;)

    Ótimo post!!
    Beijitos
    http://www.bookpetit.com

  2. Oi, Glê! :D

    Olha, eu acho pior que gente que enfia vírgula em tudo quanto é lugar, é o povo que não põe a pobrezinha em lugar nenhum ><" hahaha

    Acho que essa questão de vírgula é questão de ler. Você lê e nem precisa aprender regra, porque se acostuma com onde ela deve e tudo mais. Aprendi assim, na raça mesmo, porque sempre fui péssima em regras de gramática hahahaha

    Mas, claro, pro pessoal que tem blog literário, o mínimo é saber escrever, né? Me dá COCEIRA de ver os atentados à língua portuguesa de vez em quando, juro o_o

    Beijoooo!

    Ju
    julianagiacobelli.com

  3. Oi Gleice!
    Adorei, o, seu, post! ;)
    Falando sério agora, achei muito bom mesmo. Não sabia da origem da vírgula, e lições de português é algo que é sempre bom relembrar.
    Eu uso bastante a vírgula antes do “e” e muita gente já veio me dizer que era errado, apesar de eu sempre ter achado certo (nos casos que se aplica, claro). Agora tenho o seu post para provar!

    Beijos,
    Sora – Meu Jardim de Livros

  4. Amei o post. Vou comentar no twitter

    Ficou perfeito, exatamente como eu me sinto vendo matarem o português, e não é o da padaria da esquina.

    Na Veja da semana passada, ou da outra, não me lembro, tem uma reportagem ótima também sobre o “por conta de”, você leu? Tá disponível pra não assinantes também.

    Um abraço e parabéns!

  5. Amei!! Linda postagem!!!
    é tem pessoas que amam colocar vírgulas, ou simplesmente esquecem da coitada, ou a colocam de modo que deixa a frase inteligível.
    Amei!!!!
    E para aqueles que mataram ou ficaram brincando nas aulas de português, esse post vai ser de grande utilidade!!
    Bjs linda!

  6. hahahaha Pensei que você pegaria mais pesado, porque eu vivo usando virgulas.
    Acho que meu maior problema aí é no: “O abacaxi foi a única fruta que se salvou, no entanto estava sem gosto. (‘entretanto’ ou ‘mas’ ou ‘porém’ ou ‘todavia’…)” Porque eu colocaria As galinhas morreram, porém, botaram ovos antes.
    Ta errado a virgula antes e depois do porém “fêssora”? hahaha
    Ótimooooo post, é assim que se faz. Aproveita e ensina o povo a escrever “com certeza” Porque ele junto está me mantando aos poucos. hahaha

    Beijos

    Ana
    @eufases

    1. “Porém” entre vírgulas só quando a conjunção estiver no meio da oração. Exemplo: Eu quero comprar morangos. Não será, porém, dessa vez.
      Sacou? ;)

  7. adorei o post
    confesso que eu adoro usar vírgulas, distribuir elas por aí como se nunca fossem acabar kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    zoa, é sempre bom relembrar certas regrinhas, ainda mais para pessoas que estão 10 anos afastadas da sala de aula, tipo eu (oi?)
    bjos

  8. Gleice, querida, mas que post maravilhoso. Sou sua fã, sério AHAHAHAHAH. Bom humor somado à vontade de ajudar os outros? Perfeito!
    Posso fazer um pedido especial? Poste sobre palavras homônimas e parônimas. Esse é um caso muito sério também AHAHA.
    Beijos, querida.

  9. Eu tenho sempre que ficar me vigiando, senão aparece vírgula para todos os lados! É um vício, não tem jeito! Mas sempre que escrevo algo eu volto e dou uma lida, pra ver se está tudo certo. Às vezes passa despercebido.
    Adorei o seu post, é super útil, e bastante gente deveria ler!
    Se ensinassem assim na escola, desde cedo, seria bem mais fácil.
    Beijos

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