Leanne Hall é australiana e trabalha como especialista infantil em uma livraria independente. Com a quantidade enorme de histórias que tem em sua cabeça, claro que tem como objetivo, um dia, viver somente disso. E talento pra isso, ela tem. Seu primeiro romance, Um Mundo Chamado Timidez, ganhou o Text Childrens and Young Adult Writing Prize.

MeninaSelvagem decide passar uma noite em Timidez – local da cidade onde a luz do sol não dá as caras, ou seja, é noite durante as 24 horas do dia. Com uns amigos, vai para um bar, onde conhece o MeninoLobo, que uiva assim que a vê. Claro que ela acha esquisito, mas isso só faz com que sinta mais curiosidade em relação aquele garoto misterioso. A solidão de ambos se encontra e dali nasce um vínculo. MeninoLobo, então, se faz de guia para MeninaSelvagem e juntos desbravam as ruas escuras e silenciosas de Timidez. Lugar este que esconde crianças viciadas em açúcar, piratas, ciganos e pessoas perigosas. Na penumbra de Timidez, os dois se metem em uma aventura louca, mas que faz com que, aos poucos, ilumine o interior de si mesmos. (Resenha completa aqui.)

A autora, muito simpática, ficou curiosa quando enviei um e-mail pedindo uma entrevista e dizendo que era brasileira. Comentou que fui a primeira a entrar em contato com ela. Aproveitei e dei algumas informações de como a crítica de seu livro por aqui estava muito boa!

Bem, nesse papo, ela fala um pouco sobre como é seu procesos de escrita, livros que a influenciaram, como foi escrever Um Mundo Chamado Timidez e muito mais.

Para saber mais sobre a autora, pode visitar seu site.

***

MURMÚRIOS PESSOAIS: Quando e por que você começou a escrever?
LEANNE HALL: É muito difícil dizer quando comecei a escrever, sinto como se escrevesse desde sempre! Escrevi contos e livros de imagens, quando eu estava na escola (elementar) primária; poesia, quando eu estava na escola secundária; e peças de teatro, contos e roteiros de cinema, quando eu estava na universidade. Mesmo quando eu estava fingindo ter outros empregos, eu continuei escrevendo contos à noite e nos finais de semana e, finalmente, começaram a serem publicados em revistas literárias e antologias. Comecei o meu romance Um Mundo Chamado Timidez por volta de 2007. Foi o primeiro romance que escrevi.

MP: Que livros que mais influenciaram sua vida?
LH: Quando era criança, tiveram alguns livros muito importantes para mim: Onde Vivem os Monstros de Maurice Sendak, Jacob Two Two Meets the Hooded Fang de Mordechai Richler, e Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, além de muitos, muitos outros. Os livros que me influenciaram quando adulta são muitos para numerar, mas alguns mais importantes foram Hideous Kinky de Esther Freud, Coraline de Neil Gaiman, e The Magicians de Lev Grossman.

MP: Existe algo que você ache particularmente desafiador em escrever?
LH: Acho que é muito desafiador criar arcos narrativos completos e dinâmicos. A criação de plots é definitivamente no que mais preciso trabalhar!

MP: O que vem primeiro? A história do personagem ou a idéia para o romance?
LH: Para mim, a idéia geralmente vem em primeiro lugar. Com Um Mundo Chamado Timidez, comecei com três elementos: os nomes MeninoLobo e GarotaSelvagem; uma cidade de trevas, e o desejo de escrever uma história que se passasse em uma noite apenas. No entanto, nunca a ideia vai adiante até que eu encontre meus personagens principais e os nomeie. Normalmente, meus personagens vêm e sussurram no meu ouvido, se apresentam e falam. Uma vez que eu os ouvi atentamente, a história segue em frente.

MP: Qual foi a parte mais difícil de escrever Um Mundo Chamado Timidez?
LH: A parte mais difícil foi escrever o primeiro rascunho. Isso se arrastou por anos, entre trabalho e um diploma de pós-graduação até chegar à publicação e edição. Eu não tinha certeza se iria ser publicado, por isso era difícil permanecer motivada e focada. Mas decidi inscrevê-lo no Text Prize, e eu tinha um prazo concreto para enviá-lo completo. Isso foi extremamente útil para conseguir terminar a história.

MP: Eu posso definir Um Mundo Chamado Timidez em três palavras: original, sagaz e surreal. É revigorante ler uma história tão singular entre muitos semelhantes (e chato) livros para o público jovem. De onde surgiu a ideia para este livro? Como você conseguiu misturar ciganos, crianças viciadas em açúcar, um menino que uiva, sem fazer a história tornar-se uma mistura louca de temas e referências?
LH: O mundo se formou aos poucos, e cada elemento tem um motivo para estar lá. Os nomes MeninoLobo e GarotaSelvagem vieram de uma antiga `hierarquia” científica das raças que incluíam outras criaturas míticas. Os nomes sugeriram os personagens, e também as obscuras e surreais coisas em Timidez. Trabalhei em várias construções de mundos para conseguir criar o subúrbio de Timidez. Pensei muito sobre o tipo de pessoa que decidiria morar em uma escuridão sem fim, e que seriam atraídos pela noite. Pensei sobre os efeitos psicológicos da falta de luz solar. É muito importante que, mesmo um mundo de fantasia, uma lógica interna seja mantida. Meu pensamento sempre foi racional, mas às vezes confuso! Por exemplo, as crianças viciadas em açúcar: eu pensei… o que as crianças fazem, se elas não tem os pais por perto para dizer-lhes o que fazer? Elas só comem doces, é claro! E o que todo aquele açúcar faz nelas? Faz com que elas fiquem loucas!

MP: Outra coisa que gostei foi o humor no livro: é espirituoso, inteligente. Os personagens são divertidos. Eu adoraria fazer amizade com eles. Como foi o processo de desenvolvê-los?
LH: Fiz listas de características e de todos os seus traços de personalidade, suas palavras favoritas e maneira de falar. Eu encontrei fotos de quem eu pensei que parecia com eles (por exemplo, na minha cabeça, o comerciante negro Sebastian se parece com o comediante/ator Dylan Moran). Criei playlists separadas para MeninoLobo e GarotaSelvagem, para que eu pudesse me colocar em seus headspace através da música. Eu tentei o máximo possível ser realista e não cair em clichês e estereótipos. Mais do que tudo, os personagens tinham conversas intermináveis na minha cabeça. Eles falavam comigo constantemente. Às vezes, eu acordava de manhã e pensava: certo, que coisas más vocês fizeram durante toda a noite? Desembuchem!

MP: Outros pontos fortes do livro são: a ação e o romance. As cenas de ação me remeteram aos bons filmes de Spielberg dos anos 80: com muita diversão e mistério. Quanto ao romance, é rítmico, tudo acontece no devido tempo (o que não costumamos ver na literatura jovem atual). Como foi trabalhar com esses elementos para atingir o equilíbrio de aventura, romance e mistério?
LH: Eu estava escrevendo puramente por instinto, e tive bons conselhos de minha editora. Ela me ajudou muito a saber quando revelar os segredos na história, em quando a ação tem que entrar, e o vai-e-vem do MeninoLobo e GarotaSelvagem. Amo livros que têm uma boa mistura de aventura e romance, então eu sempre senti que esses elementos andam juntos. Mas fazê-los funcionar requer muita tentativa e erro. Queria que o romance fosse hesitante, porque acho que é mais doce quando algo finalmente acontece.

Amo livros que têm uma boa mistura de aventura e romance, então eu sempre senti que esses elementos andam juntos. Mas fazê-los funcionar requer muita tentativa e erro. Queria que o romance fosse hesitante, porque acho que é mais doce quando algo finalmente acontece.

MP: O segundo livro da série é “Queen Of The Night” (infelizmente ainda não lançado no Brasil). Haverá outro livro da série após este ou você está pensando em escrever uma outra história?
LH: No momento, estou trabalhando no meu terceiro livro, que não é ambientado no mundo Timidez. É um livro de fantasia sobre a Espanha e feminismo e arte! Ainda não tenho certeza se vou escrever um terceiro livro sobre Timidez. Vários leitores já me disseram que eu deveria! Mas se escrever, será no momento certo, com a ideia certa. Os personagens ainda estão brincando na parte de trás da minha cabeça, por isso é uma possibilidade no futuro.

MP: Tem alguma coisa específica que você quer dizer para os seus leitores?
LH: Quero dizer como estou emocionada que Um Mundo Chamado Timidez tenha sido publicado no Brasil. Costumo dizer que os brasileiros são leitores ávidos, especialmente de ficção adulta jovem, e eu estou tão feliz meu pequeno livro está alcançando uma audiência tão longe!

Nós é que ficamos felizes, Leanne. pode acreditar. ;)

***

A Editora LeYA, gentilmente, cedeu um livro para sorteio, gente! Tá fácil de participar. Basta preencher o formulário abaixo. Não se esqueçam de ler o Terms&Conditions! ;) Boa sorte! :D

a Rafflecopter giveaway

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...