Verônica: em sua homenagem! o/

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Bianca estava sentada em uma das mesas de sua cafeteria. O expediente já tinha acabado há cerca de uma hora, e durante todo esse tempo esteve no mesmo lugar. Propositalmente ou não, era a mesma mesa que tinha sentado mais cedo com Felipe, quando esteve ali para se despedirem.
Ela suspira e abaixa a cabeça. Sente um aperto bem pequenino em seu coração. Tenta fazê-lo ir embora, mas não consegue e ele só faz aumentar. Seu ar foge por alguns segundo e percebe que estava com raiva, muita raiva. Não se lembrava de ter se sentindo assim alguma vez.
Na sua cabeça não era justo ela ter a oportunidade de ser feliz e logo em seguida lhe arrancarem. Não era certo ela ralar todo dia naquele café e mal conseguir pagar as suas contas. Não era certo ela ser boa e generosa com as pessoas quando tudo o que recebia de volta era mesquinharia e indiferença. Nada estava certo. Sua vida não estava certa. Seu modo de agir também não poderia estar certo, se não tudo seria diferente.
O aperto no coração vai aumento e então ela começa a chorar, de soluçar. Apóia seus cotovelos sobre a mesa e deixa sua cabeça entra suas mãos. Era como se tivesse deixando partir toda uma amargura e rancor que guardava por anos, era como se descobrisse somente agora que, na verdade, ela nunca se conformou com a vida que teve, apenas a vivia sem arriscar porque tinha medo. Medo de ver que seus contos de fadas não valiam de nada para ela, pois no final de tudo o que ela tinha que encarar era a realidade e não os seus sonhos.
Ela ainda chora por um bom tempo, mas aos poucos vai se acalmando. É quando escuta alguém bater na porta do café. Do jeito que está e sem vontade de vestir a máscara de ‘menina de bem com a vida sempre’, vai atender a porta.
- O café está fechado. – fala sem ver quem era.
- Eu sei.
Ela levanta o rosto e vê Marcelo a sua frente.
- Bia? – ele estranha ao ver o rosto dela todo vermelho e lágrimas ainda pelo seu rosto – Você está bem?
Ela o observa e pensa na máscara que tinha deixado para trás.
- Não, não estou. – Bianca abre espaço para ele passar – Entra.
- O que aconteceu? – pergunta assim que ela fecha a porta.
- O que aconteceu?! – ela ironiza de leve – O mesmo que tem acontecido nos meus 24 anos de vida. A mesma vida de sempre, com as mesmas pessoas de sempre, com as mesmas dificuldades de sempre, com as mesmas idiotices de sempre, eu sendo a mesma boba de sempre! Só isso!
Marcelo a observa. Definitivamente, ela não estava bem.
- Não acho que você seja boba. – ele fala com calma – Aliás, não concordo com nada do que você disse.
- E o que você sabe sobre a minha vida? Me conhece há dias apenas! – manda na lata.
Ele a fita aborrecido, queria apenas ajudar.
- Acho que foi o suficiente para saber que você não pensa do jeito que disse há alguns segundos atrás. – Marcelo explica.
- E se eu estivesse fingindo ser alguém que não sou?
- Você não faria isso.
- Como sabe? – o desafia, estreitando os olhos.
- Eu te conheço. – responde como se fosse óbvio.
- Ah sim, há dias. Esqueci! – ironiza.
- Acho melhor eu voltar outra hora. – Marcelo não acha uma boa idéia ficar ali, acabariam dizendo coisas que não queriam.
Ele se vira e vai em direção a porta.
- Isso! Vai embora mesmo. É normal as pessoas fazerem isso comigo. A boba vai estar aqui amanhã mesmo, a boba vai sempre estar aqui! – explode. – Aí quando você quiser deixar o seu dia menos entediante, pode vir pro café da boba! Quando você não souber qual livro ler, pode perguntar pra boba!
Marcelo volta e vai até ela.
- Não sei por que você está dizendo isso pra mim. – a encara – Nunca te tratei assim. Acho que você está fazendo o discurso pra pessoa errada, não?
Bianca não o responde.
- Cadê o ‘amigo do seu amigo’? – ele pergunta se referindo ao Felipe.
Ela continua calada.
- Ele foi embora, não?
Ela não o responde. Nem precisava, pois seus olhos e, principalmente, suas atitudes diziam isso.
- Você realmente achou que seria diferente? – ele continua, mesmo vendo que ela já tinha lágrimas nos olhos.
Bianca sustenta o olhar dele, mesmo sabendo que daqui a um segundo estaria em prantos novamente.
- Achou que ele não voltaria para sua vida de dinheiro e fama? Achou que ele ficaria aqui, nessa cidade que mal tem no mapa?
- É,né? Por que ele ficaria aqui com uma simples dona de um café esquecido, não?
- Não estou dizendo isso! – Marcelo quase grita.
Bianca se encolhe um pouco com a reação dele, mas logo se recompõe.
- Ah não? Ou é apenas porque é muito difícil imaginar alguém ficando comigo? É isso?
- Não! É difícil imaginar aquele idiota ficando com uma garota maravilhosa como você! – fala irritado com a atitude dela.
Ficam em silêncio. Bianca sente uma lágrima descendo em seu rosto. Ela trata logo de tirá-la dali. Outras mais surgem, entretanto.
- Você não ia embora? – ela diz.
- Ia… Mas não quero te deixar aqui assim.
- Não preciso da sua pena.
- Não é isso que estou te oferecendo. – Marcelo se aproxima.
Ele passa sua mão pelo rosto dela, afastando as lágrimas dali.

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